Substância retirou 100% dos corantes produzidos por indústrias têxteis. Pesquisa foi realizada no Instituto de Química da UnB.Caranguejos e camarões têm na carapaça uma fibra aliada da proteção do meio ambiente. Pesquisas realizadas na Universidade de Brasília apontam que a quitina - principal componente do esqueleto externo de crustáceos - ajuda a despoluir a água processada por indústrias têxteis, setor responsável por cerca de 3,5% do Produto Interno Bruto brasileiro.A equipe do Instituto de Química da UnB descobriu que a quitosana, um polímero natural obtido a partir da quitina, limpa 100% de amostras de água contaminadas pelo corante índigo, um pigmento azul muito utilizado por fábricas de jeans. Isso ocorre porque a quitosana tem a capacidade de absorver a tinta.A "limpeza" da água ocorre com a utilização da quitosana associada a semicondutores, como o óxido de zinco. Outro teste de laboratório revelou que essa mistura, quando submetida à radiação ultravioleta, degrada o corante em gás carbônico e água. A equipe da UnB conseguiu reproduzir o experimento a partir de um fotorreator construído pela própria universidade.“O óxido de zinco é sensível à luz. Desde que se coloque iluminação ultravioleta adequada, os elétrons vão ser promovidos para fazer a reação e destruir os contaminantes”, explica o doutorando do Instituto de Química Jonas Pertusatti. A UnB é pioneira nesse tipo de técnica.FÁBRICAS- Os testes ainda estão em escala de laboratório, mas podem representar uma nova forma de tratar poluentes. Hoje, a maioria das fábricas filtram o corante, e o material é guardado em estaleiros após atingir o estado sólido. Além de as empresas terem de pagar pelo armazenamento da substância, a prática aumenta o passivo ambiental – responsabilidade social da empresa com aspectos ambientais.Pela técnica desenvolvida na UnB, as indústrias vão conseguir retirar a tinta da água e, em vez de transformar o resíduo em blocos, poderão degradá-lo em água e gás carbônico. A quitosana pode, ainda, ser reutilizada. Estudos anteriores, com outras características, mostraram possibilidade de reuso em até 15 vezes. O artigo científico a esse respeito esteve entre os mais acessados no Journal of Colloid and Interface, em 2006.BENEFÍCIOS- A descoberta reduz o custo do processo de degradação dos contaminantes. Algumas empresas utilizam apenas óxidos metálicos para limpar a água. Com a adição da quitosana, as indústrias poderão economizar, uma vez que o preço dessa substância é bem menor do que o dos semicondutores. “Queríamos um material de baixo custo e que apresentasse bons resultados”, afirma o professor Alexandre Gustavo Soares do Prado, coordenador dos estudos. O uso da quitosana barateia o processo e ainda oferece uma alternativa de renda aos catadores de caranguejo. “A casca do caranguejo, na maioria das vezes, é jogada fora. Ao utilizar a quitosana para degradar contaminantes, aproveitamos algo que acaba virando lixo”, afirma o professor Alexandre Gustavo. “É uma forma de usar uma tecnologia nacional a favor da população”, diz.O presidente da Associação dos Catadores de Caranguejo do Povoado Brejão, em Sergipe, José Fausto, diz nunca ter imaginado esse uso para o crustáceo e acredita que uma demanda maior seria positiva. “A comunidade sobrevive do caranguejo. De novembro a janeiro, quando a oferta é alta, o preço cai e nós trabalhamos três dias por semana para não acumular mercadoria”, diz. “Seria excelente, porque teríamos mais pessoas trabalhando e tendo seu sustento”. Hoje, a comunidade vende, por semana, cerca de 3 mil animais a R$ 0,60 cada.Responsável pela área de Tecnologia da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, Sílvio Napoli, diz que a inovação seria bem-vinda. “Quem trabalha precisa ver funcionar na prática. Desde que tivesse um custo mais baixo, por que não usar?”, diz. “Nós, os produtores, temos uma verdadeira obsessão pela conservação da natureza”.A substância da carapaça de caranguejos é pesquisada pela UnB desde 2002. Enquanto os estudos prosseguem, a equipe avalia o uso da quitosana para liberação controlada de substâncias usando nanotecnologia. As análises darão mais um uso ambiental para a substância, atualmente matéria-prima em uma série de suplementos alimentares que aumentam a sensação de saciedade e reduzem o colesterol.
As imagens foram cedidas por Miguel von Behr
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